terça-feira, 26 de setembro de 2017

FICA, MAURO ZAQUE!


O que mais choca, fere e dói é saber que essa artimanha porca - essa vil espelunca - parta de alguém que, até há pouco tempo, se apresentava aos mato-grossenses como o paladino da moralidade pública.
 

RD News


Por Antonio Cavalcante Filho


Confesso que não me agrada destacar publicamente nomes de pessoas, nem mesmo quando elas são dignas de elogio e muito menos quando o sujeito merece de mim alguma crítica. Nessas ocasiões, se possível, gosto de dizer em particular o que penso. Mas a situação atual merece que eu faça uma exceção ao meu modo de agir e torne pública a minha manifestação.

É que, mais uma vez, estão tentando calar um servidor público sério, tratando de impedir que ele continue realizando o seu trabalho com decência, independência e dignidade. Refiro-me ao promotor de justiça Mauro Zaque, um dos quadros mais experientes do Ministério Público Estadual, espécie de profissional que não se conformou em “tocar” processos contra às pessoas do grupo dos três “pês” (Pedro, Paulo e Permínio), avançando contra os delitos praticados pelos ricos e poderosos. O que mais choca, fere e dói é saber que essa artimanha porca - essa vil espelunca - parta de alguém que, até há pouco tempo, se apresentava aos mato-grossenses como o paladino da moralidade pública.

Todavia, não é de hoje que malfeitor quer escolher quem irá lhe julgar. Quem não lembra do “Rei dos Fichas Sujas”, José Riva, tentando impedir a criação das varas especializadas contra o crime organizado? Quem já esqueceu das tentativas do criminoso de querer escolher, a dedo, quem poderia ou não lhe julgar?

Lembro-me que o Tribunal de Justiça estadual, ainda sob a gestão do desembargador Paulo Lessa, recebeu, em 2008, a manifestação de algumas entidades do movimento social, entre elas o MCCE (Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral). Os ativistas pleiteavam a criação de estruturas no Judiciário que permitissem o processamento de “gente de bens”, no caso os integrantes do crime organizado. Geralmente, esse tipo de “cliente” do Direito Criminal sempre foi tratado com toda a delicadeza e salamaleques nos fóruns de Mato Grosso e Brasil afora. Infelizmente, essa cultura infame das elites sanguessugas e corruptas vinha sendo transferida de pai para filho desde as capitanias hereditárias.

Alguns ainda hoje o são, se forem do PSDB e a depender do juiz (tem aquele do Paraná que é tucano-mor)! Mas nesse texto isso não vem ao caso.

Pois bem.

Os deputados estaduais, comandados, naquela época, pelo “campeão brasileiro dos processados”, o ex-presidente da Assembleia Legislativa, trataram de aprovar, a toque de caixa, e na calada da noite, a Lei Complementar 313, em 16 de abril de 2008, que acabava com a criação de varas especiais para julgar crimes de “bacanas” e ações de improbidade administrativa.

Por um lado, a reação da sociedade foi rápida, e por outro, a postura dos “caititus do Riva” carecia de constitucionalidade. E assim, a tal lei foi declarada inconstitucional. Uma vitória da Justiça, do bom combate à corrupção, e de entidades como o MCCE. Antes da instalação das varas especializadas Contra o Crime Organizado, Crime Contra a Ordem Tributária e Econômica e Crimes Contra a Administração Pública etc, cadeia em Mato Grosso era apenas um “privilégio” para um outro grupo de três “pês” da sociedade mato-grossense: “preto, pobre e puta” que lotavam os presídios do estado.

Agora, nos dias atuais, quando ladrões de colarinho branco e ternos de grifes estão fazendo companhia aos “ladrões de galinhas”, aos batedorezinhos de carteira, os “bandidos comuns”, soube que estão tentando impedir o promotor Mauro Zaque de investigar figurões do governo, mas essa reação me parece mais uma confissão antecipada de culpa do que uma tática de defesa. A não ser que se use aqui aquela máxima do futebol: a melhor defesa é o ataque! E nesse caso, o jogo dos “bacanas, dos “homens de bens” é bruto e sujo. Nisso, em sua célebre frase: “a burguesia fede”, Cazuza estava certo.

Por isso mesmo, e por tantos outros motivos, eu, que sou do povão, sempre preferi me relacionar e me posicionar ao lado dos pobres, dos marginalizados, dos excluídos e injustiçados, conforme aprendi lá na década de 70, como um devoto da teologia da libertação. Assim, adoto como meus os versos de Lews Barbosa: “Gente de bem me assusta. Gente que trata o bem como um bem ostentado. Gente de bens etiquetados. Que vigia e julga os pelados. Prefiro gente, apenas. Sem penas. Gente humana com os pés na lama. Gente que tem graça, com tropeços sem trapaças”.

Torço para que o Ministério Público reflita bem o desafio que ora lhe é imposto, e preserve, na íntegra, a liberdade do citado profissional, e, inclusive, quero lembrar que ele não é o único que sofre ameaças.

Outro dia, disseram que a promotora Ana Cristina Bardusco, outra pessoa da melhor qualidade, profissional e pessoal, teria violado sigilo fiscal de algumas autoridades estaduais, inclusive familiares de um Ministro do Supremo Tribunal Federal. Gilmar Mendes reagiu rápido, ao ser comunicado dos fatos pela OAB de Mato Grosso, pedindo investigações e punições.

Uma investigação independente foi realizada pelo setor de TI da Secretaria de Fazenda, e o corpo de auditoria concluiu que não houve nenhuma violação de sigilo por parte da promotora. Resta saber, que dirá agora a OAB, que diz combater a corrupção, mas lança desconfiança contra profissional que faz isso todos os dias, com muita competência, coragem e cuidado.

Há alguns anos, quando as grandes operações policiais ainda não eram notícia de jornal, um outro grande profissional do Ministério Público, o promotor Marcos Regenold Fernandes, começou a tratar de documentos, denúncias e informações que iriam dar a luz à operação Ararath. E daquele momento em diante, a tática de mensagens cifradas usadas pelos “bandidões”, a forma de lavar dinheiro em simulações de empréstimos, além do uso do orçamento público para o crime, passou a ser compreendido pelas autoridades dedicadas às investigações.

É uma pena que um grave erro de interpretação, principalmente do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, tirou esse promotor das investigações, sob a absurda suposição de que teria envolvimento com um delinquente que era investigado. Passado algum tempo, a verdade veio à tona, e se espera que o citado promotor possa atuar novamente ao lado de seus colegas.

Dito isso, torço para que o Ministério Público do meu Estado aja com rapidez e sobriedade, não permitindo que se lancem amarras contra Mauro Zaque, Cristina Bardusco e Marcos Regenold. E que seja rápido, porque aquele episódio de impedir a investigação do Blairo Maggi no escândalo dos maquinários, além de absurdo foi demorado, causando danos à imagem dos promotores.

Antonio Cavalcante Filho, o Ceará, é sindicalista e escreve neste espaço às sextas-feiras - E-mail: antoniocavalcantefilho@outlook.com

Fonte RD News


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

GOLPE MILITAR: LEMBRAR, RESISTIR E LUTAR


Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros.



Brasil 247

Por ROBSON SÁVIO REIS SOUZA

O mesmo general que conspira agora, com o velhaco discurso anticorrupção (direcionado ao atual des-governo), outrora fez o mesmo, atacando a então presidenta Dilma Rousseff. A época, ao ser questionado sobre o impeachment disse: "a mera substituição da presidente da República não trará mudança significativa no 'status quo'". E que "a vantagem da mudança seria o descarte da incompetência, má gestão e corrupção". Ou seja, o general tem um DNA golpista.

Como todos sabem, depois da pregação do golpe pelo general Mourão, numa loja maçônica de Brasília, o comandante do Exército, Eduardo Villas Boas (um líder moderado dentro do Exército), não o desautorizou. Ao contrário, admitiu, em entrevista a Pedro Bial, a possibilidade de uma "intervenção" militar.

Segundo Villas Boas, a Constituição Federal de 1988 garante "que o Exército se destina à defesa da pátria e das instituições. Essa defesa poderá ocorrer por iniciativa de um dos poderes, ou na iminência de um caos. As Forças Armadas têm mandato para fazer", completou.

Mas, afinal, o que é um caos? Quem define o que é caos?

Como escreveu Safatle, "ao que parece, caos seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país? Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária."

É importante destacar e lembrar que o empreendimento que resultou na ditadura militar só foi possível pela aliança visceral entre as Forças Armadas e poderosos segmentos das elites antidemocráticas e autoritárias desse país (os coronéis do latifúndio; o empresariado de mentalidade escravista; o setor financeiro corruptor; as lideranças religiosas ultraconservadoras e a mídia antidemocrática). São esses mesmos segmentos que, hoje, desejam os tanques nas ruas.

Mas, como é notório, vivemos num caos político e num regime de exceção, travestido de normalidade democrática, depois do golpe de 2016 que levou ao poder um governo de larápios, corruptos e que liquidam, desavergonhadamente, o patrimônio nacional.

Ademais, há um caos institucional, dado que, também, o Congresso, totalmente desacreditado, processa profundas reformas constitucionais, sem atribuição para tal. O Judiciário, cambiante, se tornou, por ações, conivências e omissões, parte constitutiva do golpe. E a população tem reprovado, veementemente, os três poderes. Isso é ou não é um caos?

Para alguns segmentos sociais de elite, pode-se fazer impeachment sem crime de responsabilidade e, da mesma forma, uma intervenção militar é plausível e desejável. Por isso, não adianta o Xico Sá dizer que"não entendo essa nostalgia masoquista sob a máscara verde e amarela do patriotismo". Essa máscara está sendo usada, há muito tempo, por segmentos ultraconservadores da sociedade. É óbvio.

Some-se, a isso, o fato da total capitulação dos três poderes à "nova" direita que articulou o golpe e passou a agendar a opinião pública, em parceria com a mídia-empresarial, impondo uma agenda elitista, antidemocrática e antinacional.

Como se não bastassem tantas desventuras dessa república das bananeiras, pesquisas como a do Latinobarômetro, de 2015, já demonstravam que o Brasil só perde para o México no quesito "satisfação com o funcionamento da democracia". Ou seja, o brasileiro, em geral, tem um altíssimo desgosto com a democracia. (Apenas 21% dos brasileiros afirmaram que estão satisfeitos com a democracia). Quer algo mais excitante para os desvarios de golpistas de todas as cores e fardas?

Por outro lado, é demasiadamente arriscada a ideia de uma intervenção "saneadora" dos militares. Até mesmo respeitados analistas políticos, como Moniz Bandeira (que tem defendido essa posição, como o argumento segundo o qual "é necessário impedir o desmonte do Estados nacional [e isso] terá de ser pela força") reconhece: "todos sabem como começa, mas não quando termina."

O fato é que a rebelião explícita de generais "tramada nas barbas de um presidente desmoralizado" (Wadih Damous) é resultado dos custos sociais e políticos de um golpe.

Ou seja, depois que a Constituição é rasgada uma vez, nada mais segura a (i)legalidade.

Porém, não custa nada lembrar: saídas autoritárias, propostas por outsiders da política, só aprofundam o caos, a violência estrutural e sem controle e o arbítrio.

Como escreveu Safatle, aqueles que não se subjugam ao despotismo; que não estão dispostos a abrir mão do pouco de liberdade que ainda nos resta, que não aceitam salvadores da pátria no comando da nação devem exercer seu direito de resistência à todas as formas de tirania.

Fonte Brasil 247


COXINHA ESCOLHE SEMPRE ERRADO O SEU HERÓI. É AZAR OU É PREGUIÇA DE PENSAR?





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domingo, 24 de setembro de 2017

O QUE PENSA E PARA QUE SERVE O PADRE RICARDO O MALAFAIA DA IGREJA CATÓLICA?


No mundo em que ele vive, aproximadamente no século XV, já teria excomungado e queimado na fogueira Bergoglio, aquele velhote comunista argentino safado. Padre Renato é um lembrete importante de que os nossos evangélicos de estimação não detêm o monopólio do arquiconservadorismo do Senhor. 



Diário do Centro do Mundo 

Por Kiko Nogueira

Calvo, sem tirar a batina nem para ir à praia, a cara do Salaminho da dupla com Mortadelo, menos histérico e mais culto que Malafaia — o que não quer dizer muita coisa, convenhamos –, seguidor de Olavo de Carvalho, PR daria orgulho a Torquemada pelo reacionarismo e pela pregação paranoica anticomunista e antipetista a que submete seu rebanho.

PR é da Arquidiocese de Cuiabá, onde trabalha (“trabalha”) como vigário judicial. No caprichado site oficial com seu nome, lê-se que nasceu em Recife em novembro de 1967. Aos 11, mudou-se para o Mato Grosso.

Foi ordenado sacerdote em 1992 pelo papa João Paulo II. Lecionou em lugares como as Faculdades de Filosofia e de Psicologia da Universidade Católica Dom Bosco e o Instituto Regional de Teologia. Escreveu alguns livros e apresenta um programa na Rede Canção Nova de Televisão.

Virou mesmo uma subcelebridade na internet. Vídeos com sermões detonando qualquer coisa de esquerda têm uma ótima audiência. Um deles, 500 mil visualizações. Outro, mais de 100 mil. São dezenas. São filmados em sua igreja. (Quem paga esse vídeos? Quem paga o site?)

Paulo Ricardo de Azevedo Júnior ministra cursos e palestras em todo o Brasil, pelos quais embolsa uma grana. Alguns tratam de questões religiosas. “Demonologia”, “Tríduo Pascal”, “Introdução ao Direito Canônico” e por aí afora.

Está transfixado pela “ideologia de gênero”, um câncer para o planeta, mas gosta mesmo é de falar de “marxismo cultural”. Padre PR tem uma obsessão olaviana com isso. “Somos um país com cada vez mais ignorantes, graças à esquerda e ao marxismo cultural. Gramsci, se vivo, estaria completamente realizado”, diz.


“As nossas universidades todas estão infiltradas de gramscismo. Para ensinar português, o que você faz? Não ensina mais gramática. Você vai e dá um texto para o aluno de um tema social. Os nossos alunos chegam à universidade analfabetos porque, ao invés de aprender português, aprendem marxismo”.

Ele debateu sobre ideologia de gênero na Câmara com Jair Bolsonaro, também. A foto dos dois é bonita (abaixo).


Bolsonaro e padre Paulo Ricardo


Suas ovelhas ouvem uma cantilena distópica conservadora de cortar os pulsos. Após a reeleição de Dilma, ele produziu um desabafo dividido em alguns pontos:
1 - O PT não é um partido comum! 

2 - Ele não pode ser subestimado. Precisamos conhecer o nosso adversário para não cairmos em suas manobras e alertarmos os nossos! 

 ATENÇÃO: O PT quer que católicos, cristãos e pessoas de bem espalhem o discurso do ódio. 

3 - O PT quer justificativas para rotularem católicos, cristãos, famílias conservadoras de nazistas, preconceituosas, racistas etc! Não caia nessa. 

4  - O PT deseja implantar gradualmente o mesmo sistema de Cuba com particularidades para o Brasil.  O PT trabalha para o fim da democracia. 

5 - No 13º Congresso do PCdoB Dilma declara irmandade com este partido que radicalmente já rompeu com a União Soviética e China por os considerarem comunistas “light”! 

7 -  ATENÇÃO: Esse regime socialista se dará como uma farsa de democracia! Será uma democracia falsa em que não haverá liberdade intelectual, religiosa, econômica etc! Tudo será mascarado!

O papa é absolutamente ausente da vida do padre. A agenda de Francisco pelos pobres e seu combate à desigualdade são solenemente ignorados. A luta do padre Paulo Ricardo é para ficar famoso na web destruindo o demônio vermelho e denunciando o que chama de “imbecilização” do Brasil.

No mundo em que ele vive, aproximadamente no século XV, já teria excomungado e queimado na fogueira Bergoglio, aquele velhote comunista argentino safado. Padre Renato é um lembrete importante de que os nossos evangélicos de estimação não detêm o monopólio do arquiconservadorismo do Senhor.





ESTE PADRECO COXINHA, É OU NÃO É UM FASCISTA DESCARADO?


Fonte Diário do Centro do Mundo

A HISTERIA DA NOVA DIREITA BRASILEIRA E OS PERIGOS À VISTA


EU, PACIFICAMENTE VOU TE MATAR, DIZ O CARTAZ DOS NAZI-DOIDOS 

O que está em disputa é a capacidade de legitimar uma ação de censura disfarçada de “boicote político”. A extrema direita saiu dos bueiros da história para ser o pesadelo ideológico do Brasil pós-golpe de 2016.







Publicado no Unisinos.


POR BRUNO ROCHA LIMA, professor de ciência política e de relações internacionais

É urgente debatermos o conceito de hegemonia e colocar sobre o tabuleiro de possibilidades os diversos flancos abertos pelas esquerdas brasileiras para o avanço de facções retrógradas, ainda que disseminadas através de redes sociais e com linguagem pós-moderna. O caso citado abaixo materializa este conceito e o debate consecutivo.

No dia 10 de setembro, o Santander Cultural  (operando como museu e com mostras permanentes no centro de Porto Alegre) encerrou de forma prematura a mostra Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Prevista para durar até 08 de outubro – data consagrada como o martírio de Che Guevara na Bolívia -, a exposição de artes plásticas e visuais, tendo como curador o respeitadíssimo Gaudêncio Fidelis, foi o epicentro de mais uma polêmica conservadora na Província de São Pedro. Mais do que debater se as obras eram aptas ou não para visitação escolar, do ponto de vista estratégico, foi um momento singular na disputa pela legitimidade no espaço público brasileiro contemporâneo.

Se mergulharmos em um debate a respeito do conceito de hegemonia, veremos o avanço recente da nova direita, tanto na sua versão neoliberal de linha chilena, como na vertente neoconservadora. Ambas as facções retrógradas conseguiram, através da cumplicidade dos meios de comunicação hegemônicos, ocupar o espaço público, pressionando tanto através das redes sociais como também pela interface dos condutores de programas locais. A histeria udenista avança a passos de ganso, mas sua dimensão é de profundidade. Se formos verificar os efeitos deste avanço reacionário, vamos perceber que a linguagem, o léxico, o glossário de termos aplicados por esta laia vem tomando espaço das definições conceituais clássicas da política brasileira.

A grande vitória da direita foi conseguir impor o questionamento se deve haver ou não algum tipo de limite para as expressões estéticas e artísticas. Ponto para o viralatismo histérico, gol para os herdeiros espirituais da TFP. Os limites podem existir ou não segundo o consenso forjado em torno da definição de arte. Em minha opinião, não deveria existir, como se houvesse um acórdão permitindo que as vanguardas estéticas possam se manifestar sem ter de render contas a nada e nem a ninguém. Mas, na luta política o problema é maior. Considerar ou não arte caminha lado a lado com a defesa das prerrogativas do indivíduo e da família por sobre a determinação coletiva, através das escolas, da educação, do mundo universitário e da ilustração.

Ao conseguir posicionar o tema como sendo uma “agressão a vulneráveis” e “apostasia ou profanação”, as duas alas mais à direita – neoliberais de linha chilena e neoconservadores – conseguem falar para um público maior, como o disputado eleitorado neopentecostal, que compartilha em termos gerais, tanto com o liberalismo econômico como o conservadorismo societário. Entendo que não deveria haver censura de espécie alguma, e tampouco alguma forma de autorização prévia ou controle das artes, como era a prática do “socialismo” real no bloco soviético. Mas, vejo como aceitável uma classificação indicativa, assim como defendemos na TV aberta, mas seria esse o limite das recomendações.

De volta para o passado obscurantista

 

Nosso país, a partir da segunda metade do primeiro governo Dilma, observa o avanço de uma auto-representação conservadora, fazendo de cavalo de batalha as tímidas políticas de reconhecimento empregadas pelo derrotado partido líder do pacto de classes desconstituído. A política de cotas catalisou a nova direita universitária com sua defesa da “meritocracia” e dos valores da “superação individual”. Já os neoconservadores e neopentecostais se unificaram contra a denominada “ideologia de gênero”. Na mostra Queermuseu foi esta a bandeira que agitou as hostes fascistas nas redes sociais; em paralelo, uma crítica fora de contexto, a já debatida, Lei Rouanet de financiamento para a cultura. Ponto para a direita: misturaram sistema de crenças religioso, acusações de zoofilia e pedofilia, trazendo a panaceia para o universo da estética e das artes.


Vejo a polêmica como um avanço concreto da capacidade de generalizar uma pauta conservadora em nome da “maioria” (suposta) silenciosa e através de poucos recursos de mobilização. Não é um tema menor, longe disso. Mas, reconheço que é parte do período de avanço do retrocesso, da intolerância e do conservadorismo culturalmente orientado para o norte hegemônico e anglo-saxão iniciado no chamado terceiro turno das eleições de 2014.

A decisão do Santander Cultural já abriu um péssimo precedente, aumentando a judicialização da vida cotidiana e a politização conservadora como uma expressão do poder de veto do estamento togado (magistrados e procuradores). Entendo que tanto a censura da direita, como o ato de resistência e a sentença que não autorizou a reabertura imediata da mostra Queermuseu abrem severo precedente. É possível e muitas vezes provável observar mostras artísticas com habeas preventivo, articulação jurídica prévia, precaução para ataques de hordas fascistas e um necessário aumento de auto-organização dos expositores, em todos os sentidos.

A vitória pontual destas vertentes da extrema-direita foi ter conseguido mobilizar socialmente de forma virtual, sem empregar um grande efetivo físico e, assim, poupando recursos. Também conseguiram mexer em um tema “sagrado” desde a Abertura política: a censura às expressões artísticas de vanguarda. Qualquer semelhança com a peça Roda Viva, de Chico Buarque, dirigida por José Celso Martinez Corrêa e invadida pelo CCC em 1968 não é nenhuma coincidência. Este grupo de extrema-direita, linha auxiliar da ditadura, pintava nos muros de São Paulo: “Arte sim, palavrão não!”.

Todo este caldo de cultura reacionária reforçam posições extremadas, ainda que antagônicas, tanto na campanha do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), ex-capitão de artilharia, como do general de Exército Antonio Hamilton Martins Mourão, que tem como hábito pregar a intervenção militar interpretando “livremente” o Artigo 142 da Constituição Federal. O que está em disputa é a capacidade de legitimar uma ação de censura disfarçada de “boicote político”. A extrema direita saiu dos bueiros da história para ser o pesadelo ideológico do Brasil pós-golpe de 2016.

Fonte  Unisino

https://www.facebook.com/antoniocavalcantefilho.cavalcante

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

ESTAMOS JÁ EM PLENA DITADURA CIVIL RUMO A MILITAR?


Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de populacão brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente de uma mídia empresarial que sempre apoiou os golpes e teme a democracia. 




Por Leonardo Boff

O que vivemos atualmente no Brasil não pode sequer ser chamado de democracia de baixíssima intensidade. Se tomarmos como referência mínima de uma democracia sua relação para com o povo, o portador originário do poder, então ela se nega a si mesma e se mostra como farsa.

Para as decisões que afetam profundamente o povo, não se discutiu com a sociedade civil, sequer se ouviram movimentos sociais e os corpos de saber espcializado: o salário mínimo, a legislação trabalhista, a previdência social, as novas regras para a saúde e a educaão, as privatizações de bens públicos fundamentais como é, por exemplo, a Eletrobrás e campos importantes de petróleo do pré-sal, bem como as leis de definem a demarcação das terras indígenas e, o que é um verdadeiro atentado à soberania nacional, a permissão de venda de terras amazônicas a estrangeiros e a entrega de vasta região da Amazônia para a exploração de variados minérios a empresas estrangeiras.

Tudo está sendo feito ou por PECs, decreto ou por medidas provisórias propostas por um presidente, acusado de chefiar uma organização criminosa e com baisíssimo apoio popular que alcança apenas 3%, propostas estas enviadas, a um parlamento com 40% de membros acusados ou suspeitos de corrupção.

Que significa tal situação senão a vigência de um Estado de exceção, mais, de uma verdadeira ditadura civil? Um governo que governa sem o povo e contra o povo, abandonou o estatuto da democracia e claramente instaurou uma ditadura civil. Assim pensa um de nossos maiores analistas politico Moniz Sodré, entre outros. É exatamente isso que estamos vivendo neste momento no Brasi. Na perspectiva de quem vê a realidade política a partir de baixo, das vítimas deste tipo novo de violência, o país assemelha-se a um voo cego como um avião sem piloto. Para onde vamos? Nós não sabemos. Mas os golpistas o sabem: criar as condições políticas para o repasse de grande parte da riqueza nacional para um pequeno grupo de rapina que segundo o IPEA não passa de 0,05 de populacão brasileira, (um pouco mais de 70 mil milhardários) que constituem as elites endinheiradas, insaciáveis e representantes da Casa Grande, associadas a outros grupos de poder anti-povo, especialmente de uma mídia empresarial que sempre apoiou os golpes e teme a democracia.

Transcrevo um artigo de um atento observador da realidade brasileira, vivendo no semi-árido e participando da paixão das vítimas de uma das maiores estiagens de nossa história: Roberto Malvezzi. Seu artigo é uma denúncia e um alarme: Da ditadura civil para a militar.

"Antes do golpe de 2016 sobre a maioria do povo brasileiro trabalhador ou excluído, já comentávamos em Brasília, num grupo de assessores, sobre a possibilidade de uma nova ditadura no Brasil. E nos ficava claro que ela poderia ser simplesmente uma "ditadura civil", sem necessariamente ser militar. Entretanto, como em 1964, ela poderia evoluir para uma ditadura militar. Naquele momento pouquíssimos acreditavam que o governo poderia ser derrubado.

Para mim não há dúvida alguma que estamos em plena ditadura civil. É um grupo de 350 deputados, 60 senadores, 11 ministros do Supremo, algumas entidades empresariais e as famílias donas da mídia tradicional que impuseram uma ditadura sobre o povo. As instituições funcionam, como dizem eles, mas contra o povo e apenas em favor de uma reduzidíssima classe de privilegiados brasileiros. Claro, sempre conectados com as transnacionais e poderes econômicos que dominam o mundo.

Portanto, nós, o povo, fomos postos de fora. Tudo é decidido por um grupo de pessoas que, se contadas nos dedos, não devem atingir mil no comando, com um grupo um pouco maior participando indiretamente.

Acontece que o golpe não fecha, não se conclui, porque a corrupção, velha fórmula para aplicar golpes nesse país, hoje é visível graças a uma mídia alternativa presente e cada vez mais poderosa. E a corrupção está em todos os níveis da sociedade brasileira, sobretudo nos hipócritas que levantaram essa bandeira para impor seus interesses.

Mas, a corrupção é apenas o pretexto. Segundo a visão de Leonardo Boff, o objetivo do golpe é reduzir o Brasil que funcione apenas para 120 milhões de brasileiros. Os 100 milhões restantes vão ter que buscar sobreviver de bicos, esmolas e participação em gangs, quadrilhas e tráfico de armas e drogas.

Então, começam aparecer sinais do verdadeiro pensamento de quem está no comando, uma reunião da Maçonaria, um general falando a verdade do que vai nos bastidores, a velha mídia com a opinião de "especialistas", nas mídias sociais os saudosos da antiga ditadura dizendo que "quem não é corrupto não precisa ter medo dos militares".

Enfim, estão plantando a possibilidade da ditadura militar. Para o pequeno grupo que deu o golpe ela é excelente, a melhor das saídas. Nunca foram democráticos. Não gostam do povo. Inclusive nessa Câmara e nesse Senado, poucos vão perder seus cargos ou ir para a cadeia.

O pior de uma ditadura civil ou militar é sempre para o povo. As novas gerações não conhecem a crueldade de uma ditadura total.

É de gelar a alma o silêncio da sociedade diante das declarações do referido general". Que Deus e o povo organizado nos salvem.

Fonte Brasil 247

terça-feira, 19 de setembro de 2017

O conselho do Buda para lidarmos com o assanhamento dos fascistas


Estes são apenas os fatos mais recentes a demonstrar o grau da escalada autoritária no nosso país. Os representantes do fascismo tupiniquim estão assanhados e escancaram suas bocarras horrendas para tentar devorar a liberdade daqueles escolhidos como os inimigos da vez. 




Por Pedro Breier

Bolsonaro sugerindo o fuzilamento dos responsáveis pela exposição Queermuseu; Marco Feliciano, Magno Malta e outros próceres da crítica artística visitando museus e decidindo o que deve ou não ser exibido; judiciário proibindo peça teatral e autorizando tratar homossexualidade como doença; general do exército falando em intervenção militar.

Estes são apenas os fatos mais recentes a demonstrar o grau da escalada autoritária no nosso país. Os representantes do fascismo tupiniquim estão assanhados e escancaram suas bocarras horrendas para tentar devorar a liberdade daqueles escolhidos como os inimigos da vez.

Urge pensarmos, portanto, na melhor estratégia para lidar com os que já foram contaminados pela histeria burra e, ao mesmo tempo, trazer os ainda “neutros” para o lado da defesa das liberdades e do respeito à diversidade.

É claro que quando grupos fascistas partem para a violência física a única resposta possível é a autodefesa nos mesmos termos.

Entretanto, nos debates com a galera do “bandido bom é bandido morto”, seja nas redes sociais, seja ao vivo, creio que o caminho é outro.

A resposta está neste sutra – um ensinamento resumido em poucas palavras – de Sidarta Gautama, o Buda:

 A verdade dessas palavras é evidente.

Se você duvida, faça o teste com aquele parente que cultiva o gostoso hábito de te criticar, sempre venenosamente, ou com aquele motorista do Uber reacionário que pensa que todo mundo deve se curvar ao que ele entende por correto.

Se você responder a este tipo de pessoa agressivamente, a tendência é que a réplica venha carregada de mais ódio ainda, o que, por sua vez, irá lhe irritar profundamente, fazendo com que seu desprezo inicial transforme-se em uma raiva pastosa que acabará se tornando ódio. Se você sai de uma conversa com uma pessoa que vomita ódio odiando também, ela, de certa forma, venceu. O ódio alimenta o ódio.

Agora, se você lembrar de respirar fundo; deixar a irritação que vem do âmago do seu ser dissipar-se como uma nuvem; e explanar a sua opinião com tranquilidade na voz, serenidade no olhar e amor no coração, você desarmará completamente o odiador. Na maioria das vezes ele muda o tom imediatamente e passa a conversar de forma um pouco menos indigente.

Não estou afirmando que é fácil. Definitivamente, não é. Mas é perfeitamente possível.

Lembrem-se, para facilitar a busca do estado de tranquilidade, de que os fascistas serão derrotados novamente, sem sombra de dúvidas (meditação também ajuda). O desejo humano por liberdade é poderoso demais para ser contido por meia dúzia de obscurantistas e seu séquito.

Sidarta Gautama não se tornou um Buda – aquele que alcança a iluminação – por acaso. Ele manjava dos paranauês: somente o amor dissipa o ódio.